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VOCÊ JÁ OUVIU DIZER QUE NUNCA TOCOU REALMENTE EM NADA?
A frase parece conter uma revelação da física: os átomos não possuem cascas rígidas, e o contacto quotidiano não acontece como o choque de pequenas bolas maciças. Mas concluir daí que o toque é uma ilusão significa apenas trocar uma imagem simplificada da matéria por outra igualmente enganadora.
Quando uma mão pousa sobre uma mesa, uma relação física real é estabelecida. Forças são transmitidas, os materiais deformam-se, energia é dissipada e pode haver transferência de calor, carga e matéria. A pele transforma pressão, vibração e movimento em sinais electroquímicos, enquanto o cérebro organiza essas alterações na experiência de dureza, textura, temperatura, posição e presença.
Em O Toque Atómico, Francis Valadj acompanha este gesto aparentemente banal através de todas as suas escalas.
Do interior do átomo, das interacções electromagnéticas e do princípio de exclusão de Pauli às superfícies, à adesão e ao atrito. Da pele viva e do canal PIEZO2 às vias nervosas e aos mapas corporais. Da ilusão da mão de borracha e do membro fantasma à pergunta decisiva: quem é que realmente sente?
Sem transformar a física quântica em misticismo e sem reduzir a consciência a uma sequência mecânica, o autor separa cuidadosamente aquilo que a ciência pode medir daquilo que a filosofia ainda precisa de interpretar.
Nesse percurso, Campo, Coerência e Contenção surgem como instrumentos conceptuais para compreender como diferentes organizações entram em relação, preservam a sua continuidade e resistem às transformações capazes de as destruir.
O livro desmonta dois enganos opostos: a ideia de que percebemos o mundo directamente, sem qualquer mediação, e a ideia de que, por existir mediação, tudo seria apenas uma invenção da mente. O mundo não entra em nós como uma cópia. Ele modifica o corpo, e o corpo transforma essa modificação em experiência.
Ao longo de 44 capítulos e nove apêndices, a investigação é ampliada por um glossário, perguntas e respostas contra equívocos, estudos de caso, exercícios de atenção material e reflexões sobre cuidado, limite, responsabilidade e participação.
Depois deste livro, pousar a mão sobre uma mesa deixa de ser um gesto banal.
Porque tocar não é possuir o mundo. É participar nele.
A descrição reflecte o percurso real da obra: do átomo e das superfícies à pele, ao cérebro, ao eu e, finalmente, à participação e à responsabilidade.