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Capitu traiu Bentinho? Essa pergunta atravessa mais de um século de leituras de Dom Casmurro - e permanece, deliberadamente, sem resposta. Mas este livro propõe outra pergunta, talvez mais incômoda: o que significa, para um homem, atribuir-se o direito de decidir sozinho o que aconteceu? Partindo do gesto inaugural de Bentinho - o desejo de "atar as duas pontas da vida" -, este ensaio investiga como uma suspeita afetiva se transforma em certeza inabalável. Não por meio de provas, mas por meio de uma operação silenciosa: a seleção de indícios, a reconstrução da memória, a tipificação do outro, a decisão de parar de duvidar. O livro percorre três movimentos. No primeiro, delimita o problema e critica as leituras que o dissolvem - a psicológica, que reduz tudo ao ciúme; a moralizante, que transforma o romance em tribunal; e a desconstrutivista, que celebra a ambiguidade sem enfrentar a questão da verdade. No segundo, examina os mecanismos pelos quais Bentinho fabrica sua certeza: a memória como reconstrução tendenciosa, os indícios como produções retrospectivas, a identidade como resposta a uma crise que não tolera permanecer aberta. No terceiro, propõe uma saída. Recorrendo à tradição jurídica, o ensaio mostra que Bentinho ocupa indevidamente o lugar de juiz - decide sem processo, sem prova suficiente, sem contraditório, sem possibilidade de revisão. É um anti-juiz: alguém que confunde convicção com verdade, narrativa com fato, suspeita com sentença. Contra o relativismo que dissolve a verdade na multiplicidade das interpretações, o livro defende uma terceira posição: nem dogmatismo, nem indiferença. A verdade não é uma posse, mas um horizonte que orienta a busca e limita a arrogância do sujeito. É nessa função reguladora - pensada a partir de Kant, Lévinas, Ricoeur e Habermas - que reside sua dimensão ética. Não sabemos se Capitu traiu Bentinho. Sabemos, porém, que sua certeza não basta para que estejamos certos com ele. Escrito em diálogo com a filosofia, o direito e a teoria literária, este ensaio não pretende resolver o enigma de Dom Casmurro - pretende sustentá-lo. E, ao fazê-lo, transforma o romance de Machado de Assis em uma meditação sobre os limites e as responsabilidades do conhecer.
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