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Há um número no meio do capítulo 10 do Livro dos Jubileus, e quase ninguém reparou nele.Depois do dilúvio, os netos de Noé continuam a morrer. Os espíritos que sobraram da destruição dos gigantes cegam, desviam e matam. Noé pede socorro. Deus ordena que todos os espíritos sejam presos - e o chefe deles, Mastema, aparece e pede que alguns lhe fiquem. A resposta não é sim nem não. É uma fração: nove partes descem ao lugar de condenação, uma décima parte permanece. E, no mesmo gesto, um anjo é mandado ensinar a Noé todos os remédios contra as doenças que esses espíritos causam.Durante dois mil anos, quem leu essa cena perguntou por que Deus permitiu que um décimo ficasse. Este livro sustenta que a pergunta está errada - e que a resposta está no número.Em A Administração Divina do Mal, Matthias Eberhardt defende uma tese enunciável numa frase: em Jubileus 10, o mal não é eliminado nem tolerado, mas administrado. Recebe um tamanho, um responsável, um remédio e um livro para que o remédio não morra com Noé. Quatro peças, encaixadas umas nas outras, em oito versículos. Mastema é o mal permitido; os espíritos impuros, o mal que age; Noé, a resistência autorizada. E o princípio que une os três é este: o mal é real, mas nunca é soberano.Dez capítulos reconstroem o dispositivo peça por peça. Por que a primeira coisa que Deus manda é atar, e não punir. Por que um resto que tem força mas não tem lugar não pode receber ordens - e por isso a cena precisa de Mastema, não por haver dois deuses, mas porque um resto não tem a quem se dirija um comando. Por que o adversário de Jubileus, ao contrário do Diabo posterior, não tem história: não nasceu, não caiu, não se explica - pede. Por que o número não está no pedido, mas na resposta. Por que o remédio ensinado a Noé é, tanto quanto o texto deixa ver, o mesmo saber que os anjos rebeldes já tinham ensinado - e por que a diferença está na via, não no conteúdo. E a pergunta central: por que a tradição conservou o adversário, a história dos gigantes e o remédio, e perdeu exatamente a peça que dizia quanto do mal existe.Escrito em prosa contínua, sem subdivisões, o volume confronta nominalmente a bibliografia decisiva do campo - VanderKam, Segal, Stuckenbruck, Reed, Hanneken, Brand, Klawans, Najman, entre outros - e apresenta cada objeção na sua forma mais forte antes de responder. Vinte gravuras e vinte tabelas acompanham o argumento; dez delas reconstroem o debate dos especialistas posição a posição, com o juízo do autor sobre cada uma. Uma introdução para quem começa explica, em linguagem comum, o que é o Segundo Templo, o que é Jubileus, quem são os Vigilantes - e o livro inteiro.Não é uma defesa de Deus. É a reconstrução de um modo de pensar o mal que não o elimina nem o tolera: delimita-o.
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